Carentes de GV com novas oportunidades - Centro Educacional São José de Calasanz
Ana Lúcia Gonçalves
GOVERNADOR VALADARES - Uma obra faraônica, construída no Santa Helena, bairro
que figura no mapa da pobreza de Governador Valadares, Leste do Estado, está
mudando a auto-estima e as projeções de futuro de muitos moradores. Não pela
imponência do prédio, erguido em uma área de 4 mil metros quadrados, mas pela
proposta, que é oferecer programas educacionais e atividades que dão
oportunidades à população carente e em situação de risco, priorizando crianças,
adolescentes e suas famílias. O Centro Educativo e Social São José de Calasanz
foi inaugurado na última semana. Ele tem capacidade para atender 600 pessoas e
450 vagas disponíveis.
A obra está avaliada em R$ 1,1 milhão e pertence ao Grupo Gente Nova (GGN), uma
Organização Não Governamental (Ong) que atua em Governador Valadares desde 1963.
O GGN construiu o Centro Educativo em um período de 6 anos, com recursos do
Governo estadual de Navarra, na Espanha, e Ordem dos Padres Escolápios do
Brasil. Ele foi inaugurado no último dia 11, com dez cursos profissionalizantes
e oferecendo assistência médica, psicóloga, pedagógica, odontológica, social,
religiosa e abrigo. As crianças e adolescentes recebem almoço e lanche. Quem é
assistido pela manhã, toma café e só vai embora depois do almoço. Os que chegam
à tarde almoçam e só vão embora depois do lanche. Apesar de capacidade para 600
pessoas, o Centro Educativo tem, atualmente, 150 assistidos. Entre eles, estão
40 crianças e adolescentes do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI)
que fazem aulas de informática, inglês, artesanato, capoeira, jazz, balé,
futebol e hip-hop, em uma parte do dia. Na outra, têm que freqüentar a escola.
“Gosto mais de artesanato. Já estou aprendendo a fazer bonecas, pintar panos de
prato e fazer quadros. Mexer no computador também é legal”, conta Daniele
Cristina Gomes Lanes, de 14 anos. Moradora do bairro e estudante da 6ª série, a
menina freqüenta o Centro Educativo com outras duas irmãs. «Somos sete lá em
casa e minha mãe está feliz com a gente aqui. Ela faz faxina o dia inteiro e não
tem tempo para cuidar dos filhos. Só de noite», conta a irmã Inês Carolina Lanes,
11 anos, confessando que gosta mesmo é de fazer novos amigos. “E de estudar no
computador”, acrescenta, garantindo se divertir com as histórias ilustradas
pelos professores, por meio de fantoches, e as que lêem nos livros da
biblioteca.
O estudante Antônio Viana, 13
anos, divide com o amigo Luciano Silva Ferreira, 13 anos, as atividades em grupo
e o sonho de ser jogador de futebol. Como a quadra do Centro Educativo ainda não
está pronta, eles aproveitam as horas vagas para treinar embaixadas e passes
curtos no pátio. “A gente vai ficar famoso e aparecer na televisão”, avisa
Antônio, completando que as aulas de reforço, computação e artesanato o ajudam a
sair das ruas. Os dois moram em um bairro vizinho, o Carapina, que tem alto
índice de criminalidade e pobreza.
Mulheres aprendem uma profissão
GOVERNADOR VALADARES - As mães das crianças e adolescentes assistidos pelo
Centro Educativo e Social São José de Calasanz recebem assistência por meio dos
cursos profissionalizantes. O de cabeleireira é um dos mais procurados e está
sendo oferecido em parceria com o Senac. Para muitas dessas mulheres, esta é a
primeira oportunidade de qualificação e de reais chances na disputa por uma vaga
no mercado de trabalho.
“Eu sei trabalhar como faxineira, mas nem sempre aparece serviço. Quero uma
profissão que me dê certa estabilidade, dinheiro no final do mês e melhor sorte
para os meus filhos. Sem fazer um curso, eu não tinha chances, ficava sem
trabalho”, conta Juliana Sales, 27 anos, uma das 14 alunas do curso. Ela tem
dois filhos e, durante as aulas, se reveza na condição de cliente e de
profissional da beleza. A instrutora do curso, Nilma Tomaz dos Santos, 55 anos,
conta que todas as suas alunas compartilham sonhos diferentes, mas têm em comum
a busca por melhor qualidade de vida. “É impressionante a força de vontade
dessas mulheres. São interessadas e dedicadas”. O Centro Educativo também
oferece os cursos de estética corporal, depilação, manicura e pedicura. Qualquer
pessoa pode participar. Segundo a assistente social Patrícia Bicalho, uma das
coordenadoras do Centro, a Ordem Religiosa das Escolas Pias Padres Escolápios
(Oreppe), que administra o Centro Educativo, quer divulgar suas atividades para
facilitar a adesão de novos parceiros e a vinda de mais verbas para que ele
funcione com toda a sua capacidade.
Atualmente, para atender aos
150 assistidos, o Centro Educativo conta com 20 funcionários efetivos e mais de
cem voluntários. Todo atendimento é gratuito. A infra-estrutura inclui salas
para as aulas e cursos, cozinha, biblioteca e área de lazer. Ainda estão em
construção o playground e a quadra de esportes coberta, com arquibancadas, além
de uma grande área para convenções, reuniões e outras atividades sociais.
“A inauguração do Centro Educativo é a realização de um sonho. Há cinco anos,
não imaginávamos que poderíamos chegar neste dia. Amamos as crianças e queremos
oferecer o melhor para elas”, informou o padre Fernando Aguinaga Huici,
presidente do GGN. Segundo ele, ainda falta terminar a parte física da obra, que
já tem 2.200 metros de área construída. O dinheiro virá da Europa.
“Mas os recursos humanos são os
mais importantes e estes queremos conquistar aqui, em Governador Valadares: são
os voluntários que fazem acontecer todas essas ações”.
A expectativa, de acordo ainda com o padre, é de chegar ao atendimento a 1,2 mil
pessoas, por meio dos vários ‘braços‘ do GGN na cidade. O prefeito José
Bonifácio Mourão (PSDB) está impressionado com a obra e ações desenvolvidas. “Ao
capacitar a criança, estão apostando no futuro do cidadão. Na medida em que
investem, criam uma distância entre o caminho do mal e o do bem”, disse o
prefeito, lembrando que o local escolhido foi estratégico. O Centro funciona na
Rua Carlos Chagas, 66, Bairro Santa Helena.
Escolas são construídas por voluntários
GOVERNADOR VALADARES - O Centro Educativo e Social São José de Calasanz é uma
obra nova, mas as ações do Grupo Gente Nova (GGN) já são conhecidas em
Governador Valadares, em especial pela população carente. O GGN foi fundado em
10 de maio de 1963, pelo padre Eulálio e por alunos do Colégio Ibituruna, para
atender necessidades materiais, educativas e pastorais do Bairro Carapina, ações
que foram estendidas aos bairros vizinhos como o Santa Helena, Querosene, Santa
Efigênia, Esperança e Nossa Senhora das Graças. O trabalho já começou amplo.
Além de visitas e cadastro das famílias, as equipes, formadas em sua maioria por
voluntários, trabalhavam na educação e geração de renda, oferecendo palestras
sobre temas diversos. Essas equipes eram ainda responsáveis pela catequese e
formação de catequistas e participaram ativamente de construções de escolas e
chegada de água, luz, escadarias e ruas do Bairro Carapina. Em 1993, já sob a
coordenação do padre Manolo e apoio econômico da Paróquia Nossa Senhora das
Graças, foi criado o Centro de Apoio ao Menor, que está em pleno funcionamento,
mantendo um educador para o trabalho diário com meninos de rua, uma assistente
social responsável pela diretoria e dois educadores, que cuidam das atividades
escolares. Em fevereiro de 2000, a coordenação do GGN foi assumida por leigos
das Escolas Pias do país Basco, que idealizaram o Centro Educativo, que só
começou a ser construído em 2001. Com ele, outras ações foram implementadas,
dentre elas, o fortalecimento, com educadores contratados e voluntários, de
atividades como bordado, inglês, capoeira e computação, atendimentos médicos e
psicológicos, acolhimento de medidas socioeducativas, assistência social às
famílias, todas em pleno funcionamento. A prestação de serviços à comunidade
virou o programa ‘PSC‘, com aulas de marcenaria e a promoção do Peti, um
programa do Governo Federal que passou a ser um desafio, assim como a Casa Lar,
hoje considerado o principal projeto do GGN.
A Casa Lar é uma medida de abrigamento provisório que segue os princípios estabelecidos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Atualmente, o GGN tem duas casas abrigo, a Alegria e Esperança, que acolhem oito meninos e meninas cada. O GGN emprega mães ou casais sociais para cuidar dos locais. Essas casas lares promovem o desenvolvimento das crianças e a integração social e familiar, até conseguir o retorno delas à família de origem ou a colocação em uma substituta. Para alcançar estes objetivos, o GGN presta assistência social às famílias, psicológica às crianças e formação às mães sociais. (A.L.G.).
Confira algumas fotos.